Textos

Diagramas, por Carlos Miguel Fernandes

Diagrams, by Carlos Miguel Fernandes

O corpo neutro, por André Alves

O livro chegou-me às mãos em Roma. Nessa altura refletia sobre a imagem, a fotografia, a escultura e a memória. Andava a pensar em algo, ideias soltas, mas catalisadas. Estava a ler um livro do pintor português Júlio Pomar (1926-2018) ”Da cegueira dos pintores” e outro do escultor também português Rui Chafes “Entre o céu e a terra”. O Júlio fala muito da imagem na pintura e da própria imagem. O que me levou a perceber uma nuance que o hábito faz esquecer, que a imagem é só o que projetamos no cérebro, ou seja uma percepção do que a retina mostra e o cérebro filtra e constrói. Esta imagem é rica pois é viva e sem medium, não existe recriação num medium. Por outro lado a pintura, a fotografia, a escultura, ou a dança são recriações e projeções destas imagens. Da observação das pessoas no metro, enquanto lia, notei que normalmente a projeção na fotografia é mais fugaz, mais momentânea, na dança projeta-se num movimento incessante como um decalque químico no tempo e no espaço sobre esta imagem viva, em correção constante sobre o corpo vivo para ser imagem.

Se observarmos uma imagem que sucede antes e depois do click, muitas vezes cinco segundos são suficientes para aquela imagem se desfaça e perca a carga que poderia ter. Enquanto que se pensarmos numa escultura da mesma imagem, nesta permanecem os traços gerais por um, dois, minutos no mínimo. A posição dos olhos, as pestanas, a respiração, à partida, não entram diretamente na recriação da escultura mas na soma que o autor faz delas: as suas ideias desses traços, o seu modo de os transformar, recriar. Deste ponto de vista a escultura parece-me mais perto da memória, algo com traços gerais, muitas vezes físicos, quase difusos mesmo quando referimos memória fotográfica, outra nuance que o hábito fez esquecer.

Falando agora do teu livro e ligando-o à memória, numa primeira análise, a divisão em partes sugere-me um espelho quebrado entre ti a tua família, entre o presente e o passado. Fragmentos duma memória espalhada que preenche um espaço que te encontra no Brasil, ele próprio para nós, uma terra de reencontro. Há momentos de uma beleza enorme no texto, sobretudo a atmosfera inicial, o modo como as referências surgem de um modo natural. Por exemplo, a fotografia em que apareces na secretária com todos os livros é muito inspiradora, pois as referências vão aparecendo no texto aos poucos como uma viagem pela tua “secretária” e pelos instantes das tuas escolhas, das descobertas de possíveis cartas. O passado, o presente e o momento de leitura viajam pela imagem como por um mapa da história.

A palavra “agora” na segunda foto suscita-me estranheza, mas gosto do efeito que causa na primeira imagem como se a primeira fotografia da secretária só se completasse com a segunda. Tudo neste trabalho é-o no breve instante em que deixa de ser, “o duro desejo de durar” apresenta-se como a maior contradição, mas só ela é real.

Encontraste mesmo a fotografia da tua mãe naquele livro no Brasil? A meu ver, a verdade é que isso não interessa, interessa é que o leitor sente vontade de perguntar, tem esse efeito intimista. Como um corpo neutro que flutua e se apresenta ao poucos diante nós, como se todo o livro flutuasse no tempo e no espaço, como um corpo que dança. Um bola branca, etérea, da qual a metáfora pode ser a bola Nívea na praia. A esfera, que na memória é o índice para todas as tuas memórias que flutuam ainda hoje, possivelmente num cristalizado sonho de criança. 

Voltando à reflexão sobre o medium e a imagem. A composição fotográfica é muito sensível ao enquadramento, tem muita resolução informativa. É um suporte que tem muito mais de científico do que de artístico, mas o contexto muda tudo, o tempo em que fotografia vive cria outro espaço em torno dela e deixa de ser o que representa. No entanto, presta-se a contar histórias tendo um discurso próprio, que no limite leva ao cinema, como um poema que se dilui com o tempo para a prosa continuar. É claro que não direto, na água, como exemplo, existem transições de fase, do líquido para o gelo, do vapor para a forma líquida outra vez, há sempre descontinuidades.

A fotografia é um suporte tão bom para respostas como para perguntas, mas creio que as fotografias do teu livro me deixam com mais perguntas. 

O facto da tua fotografia ter escultura é muito interessante. É um mergulho avassalador dentro da imagem em que o objeto esculpido fica imóvel, invariante nas fotos e memória (Será mesmo?). O objeto esculpido, vejo agora, é o verdadeiro corpo neutro, imutável. Como se houvesse um espetador sempre presente na história, um duplo dele mesmo, um espetador da sua própria história num tempo a posteriori, ou seja, o simulacro para uma experiência fotográfica em que artefato é a escultura. 

É extraordinariamente revelador da natureza do tempo fotográfico e do tempo da escrita em que o sujeito se separa do seu eu para se observar de um modo exterior, a partir dum “agora” em que decide fazer essa análise. Depois desse momento, durante a análise, também ele é um corpo neutro, espetador, e talvez o leitor também o seja, havendo na verdade a história dum vulto, de vultos que se observam. Na verdade somos nós, sem nos apercebermos, porque o invólucro é anónimo, por isso a verdade do reencontro é irrelevante, o eterno retorno é uma premissa universal. 

O processo que ocorre na criação é documentado, desde o autor até leitor ninguém é esquecido, qual espelho face ao espelho. Temos acesso a tudo, o que é raro, porque alguém retira um dos espelhos, quebrando o infinito dessa sucessão, porém esta imagem é preservada, e por isso aproxima-se da escultura no seu caráter suspenso e invariante.

Oferecem-nos uma auto-representação e um discurso na primeira pessoa mas num modo não autobiográfico, narcisista, mas visto de costas, não importa a sua imagem mas o que ele vê, a sua experiência. É uma viagem de corpo presente ao corpo neutro que é de índice da história, da história de quem se apropria dela. Assim une-se o universo pessoal fotográfico de Sophie Calle com o corpo de Marina Abramovich.

Vejo o livro agora, depois de uns dias na estante, a lombada sem texto ou informação, apenas camadas de folhas cozidas a linha são o índice para o próprio livro feito de fragmentos. Neste sentido observo um carácter fractal na obra pela propriedade de auto-replicação: a lombada como símbolo do interior, a tua foto como o índice da viagem, e depois os vários episódios que se confundem e confluem para criar um tempo passado, de sonho, e de presente com um sentido passado, e ao mesmo tempo de oráculo para o futuro, do próprio leitor. Parece-me evidente, que o gesso é a pele da sibila que nos dá a certeza da história seja ela qual for. É uma história com um corpo dentro, mesmo que esta não pense, pois não se exprime, vive e por isso e existe mesmo sem letras na lombada.

O duro desejo de durar, por Ana Maria Maia

DO PROJETO: Projeto para exposição individual onde o gesto do autor se divide em três diferentes momentos: o primeiro, a instalação de uma animação fotográfica projetada sobre parede em grande escala com a mesma duração do horário diário de abertura ao público do Centro Cultural São Paulo; o segundo gesto, a transformação do espaço expositivo em atelier de moldagem em gesso aberto ao público duas vezes por semana**, com modelos vivos (os corpos dos artistas que serão convidados); e o terceiro, convidar outros três artistas a frequentarem a maior parte do tempo possível o centro cultural durante a exposição e, à maneira de etnógrafos, escreverem; lerem o livro Elogio ao amor, entrevista de Alain Badiou a Nicolas Truong; e, no último dia da exposição, participarem de uma apresentação no horário e suporte que escolherem. 

[…]“Se a antropologia é, desde Malinowski, buscar o ponto de vista nativo, é preciso que o corpo se desloque, que faça uma viagem (toda a experiência é uma viagem e toda a viagem é uma experiência)”. A viagem continua, mas de explorador tenho pouco e de descobridor não quero ter nada. Não é a novidade que me fascina, é a repetição das coisas, a configuração de hábitos, e as diferentes perspectivas que os mesmos acontecimentos podem ter. (FB)

** No desenvolvimento do trabalho, o ateliê presencial foi substituído por uma fotografia de etapas sobrepostas do processo de moldagem de gesso sobre o corpo.


AMM:
 Sempre penso no quão otimista é a promessa de recondução da arte à vida, plantada como projeto pelos conceitualistas desde os anos 1960 e hoje naturalizada como bordão da arte contemporânea. Dizemos “artevida”, de uma vez só, confirmando a alta dose de confiança depositada.  Concordo que a intenção é boa, mas o que ela pode alcançar na prática? Lanço uma pergunta e não sei a resposta. É complicado responder, porque a arte, com todos os seus adjetivos (dissenso, denúncia, beleza, construtividade, transcendência etc. etc.), é muito pouco diante da vida – não a vida das rotinas, dos dogmas, dos padrões que oprimem e que redundam em si mesmo, mas a vida das complexidades, sutilezas e das entregas ao que não se pode controlar nem muito menos representar. Sinto respeito e coragem no ímpeto com que vocês, Filipe, Erika, Mariana e Renato, se propõem a interpelar essas questões. Longe de resolvê-las, investigarão com seus corpos e dedicação de horas, distribuídas ao longo de todo o período da mostra, como existir e aprender na zona de conflito de escalas e temporalidades. Talvez seus gestos permaneçam invisíveis em visitas rápidas ao espaço, mas, contrariando a mitologia, o rolar repetitivo da pedra de Sísifo atesta tudo menos fracasso. […] A continuar.

Concebido a partir do projeto O corpo neutro, do artista plástico e fotógrafo Filipe dos Santos Barrocas, a exposição O duro desejo de durar, contemplada pelo edital da II Mostra Programa de Exposições 2017, propõe o gesto do autor em 3 momentos: o primeiro, espacial, a vídeo-instalação projetada em grande escala com a mesma duração do horário diário de abertura do espaço expositivo ao público do Centro Cultural São Paulo; seguido do segundo momento, a moldagem do corpo em gesso dos quatros artistas que no momento seguinte ocuparão a posição de etnógrafos no espaço do centro cultural. 

Barrocas abre espaço para outros três artistas (Erika Kobayashi, Mariana Viana e Renato Jacques) a frequentar a maior parte do tempo possível no CCSP durante o período da exposição, assumindo a posição de etnógrafos ao escrever, performar e narrar histórias e experiências vividas neste espaço. 

CCSP: Comentem um pouco a trajetória de cada um de vocês até chegar aqui.

Filipe Barrocas: Em dezembro de 2015, defendi meu mestrado em poéticas visuais na ECA (Escola de Comunicações e Artes da USP) e publiquei um livro com apoio do PROAC da Secretaria do Estado de São Paulo intitulado O corpo neutro. Um livro escrito em diálogo com outros artistas. O que vem se tornando uma marca do meu trabalho.

Mariana Viana: Trabalho com dança, me dedico aos estudos do corpo em movimento. Sinto que a dança é um lugar que me abre caminhos para descobrir coisas e estar no mundo. Também tenho interesse no cruzamento da dança com outras linguagens artísticas. Me movo bastante no campo da escrita e na relação com a cidade.

Renato Jacques: Acho que, antes de tudo, sou poeta e escritor. Mas possuo um projeto de investigação antropológica e o meu primeiro interesse de pesquisa são processos criativos, e foi assim que eu caí na dança. Minha pesquisa começa quando começo a aprender a dançar. E hoje eu pesquiso-danço em alguns contextos da dança de São Paulo. Da observação dos processos eu passei às práticas. E, nesse meio tempo, sempre escrevendo, conheci o Filipe numa oficina de compartilhamento de processos criativos na Oswald de Andrade. Ele me convidou a colaborar no livro O corpo neutro, do qual escrevi um capítulo, e desde então a gente vem trabalhando juntos. 

Erika Kobayashi: Além da dança e performance, trabalho com chás e me dedico ao estudo das práticas orientais, que também envolvem o corpo.  Comecei a lapidar a ideia de levar performances com chás para as ruas e desenvolver um trabalho de corpo para isso. Me interessa muito a relação com a cidade, o que é que se cria a partir do diálogo entre corpo e a rua, os espaços que ele habita.

CCSP: O trabalho que vocês vão apresentar se divide em três momentos. Os dois primeiros se pautam pela sua experiência individual com a fotografia e a relação corpo e gesso. Como se deu a concepção das criações que integram esses dois momentos?

Filipe Barrocas: O duro desejo de durar é uma citação um livro de Paul Eluard, de 1946, os últimos poemas de amor; e Alan Badiou, Elogio ao amor, fala que o amor tem outro tempo * — Badiou rastreia na filosofia, na arte e na política as linhas de fuga pelas quais o amor se desenha como a instauração, na identidade do indivíduo, de uma diferença pura. Essa foi a base para propor um processo duracional no Centro Cultural São Paulo. 

*(O amor, segundo Alain Badiou, além da religião, da reprodução, do estado e da famíla é duração. “Esclarecendo: por duração, não se deve entender que o amor dura, que nos amamos sempre, ou para sempre. É necessário entender que o amor que o amor inventa uma forma diferente de durar ao longo da vida. Que a existência de cada um, pela experiência do amor, confronta-se com uma nova temporalidade. O amor também é, sem dúvida, como diz o poeta, o duro desejo de durar. Mais do que isso, porém, é o desejo de uma duração desconhecida. Porque, como é sabido, o amor é uma reinvenção da vida.” Palavras de Badiou no livro “Elogio ao amor”.)

A exposição é uma vídeo-instalação e um programa performativo para quatro corpos. Durante os cinco meses que dura a exposição o programa performativo por eles denominado de Grupo de estudos reunir-se-á no espaço expositivo todas as sextas das 9h às 17h, horário comercial. Num primeiro momento sem divulgação e para um público que já frequenta o centro cultural e, num momento seguinte, com divulgação de ações específicas.

CCSP: De que forma as noções de permanência e de observação no espaço fundamentam a participação de vocês no trabalho?

Renato Jacques: Acredito que a influência da antropologia em meu trabalho artístico se transferiu também para este processo, a partir da ideia de uma postura etnográfica, o que significa uma vivência prolongada e aprofundada num determinado contexto por meio da qual se tenta produzir e construir entendimentos e leituras daquele lugar, daquele espaço, daquele mundo.

De certa maneira, este programa performativo funcionará assim, ou seja, iremos a campo — o campo, neste caso, é o Centro Cultural São Paulo, com toda a infinitude que isso possa querer dizer, afinal não há a princípio um limite exato para definir o que é o CCSP. 

Nesse processo de ir a campo, vamos coletar, produzir, criar dados, conhecimentos, etc. Os resultados disso ainda estão em aberto. A ideia é que, depois do campo, a gente volte para o espaço expositivo para performar nossos achados.

Quando falamos de um processo duracional, isso significa que este espaço estará em constante movimento, em constante devir, digamos. Por exemplo, o Filipe está nos ensinando a moldar em gesso e pode ser que utilizemos dessa técnica para criar esculturas a partir das nossas saídas a campo. 

Erika Kobayashi: Da mesma forma que existe abertura em nossas pesquisa e escrita para o acontecimento, isso também invade o programa performativo. É uma estrutura que apresenta diversas ramificações abertas o suficiente para nos afetar e se transformar nessa criação. 

Mariana Viana: Quando habitamos um espaço há um encontro entre os corpos que ativa uma mudança em todas as partes — ou uma deformação —, sinto que estar neste espaço por um longo período nos mostrará outras dimensões dele, outras camadas, outras possibilidades de existir e comunicar aqui.

Filipe Barrocas: A existência desse projeto depende dos seus mais variados pontos de vista, das suas perspectivas, cada um enquanto indivíduo. Daí a razão pela qual não nos intitulamos como um coletivo. Nós não tivemos uma conclusão única dos nossos encontros, cada um tem o seu e quanto mais melhor.